Enquanto as ações sobem, o Bitcoin segue uma trajetória oposta desde o seu máximo histórico em outubro. Esta divergência levanta questões: estará o Bitcoin a tornar-se um ativo de pleno direito, desligado das suas dinâmicas habituais? A sua volatilidade continua a ser um obstáculo, mas os seus fundamentos aproximam-no cada vez mais de uma reserva de valor moderna.
O Bitcoin segue o seu próprio caminho e deixa as ações dispararem
O Bitcoin continua a ser um ativo amplamente mal compreendido, ou mesmo incompreendido, em todo o mundo. Diferentes grupos de indivíduos reagem de forma diferente face aos riscos associados à sua detenção. Para alguns, a sua forte volatilidade torna-o um ativo demasiado arriscado para ser integrado numa carteira de investimento.
Outros consideram, pelo contrário, que essa volatilidade é aceitável, desde que a exposição se mantenha moderada e controlada. Uma terceira categoria vê nas suas características fundamentais (escassez, resistência à censura, descentralização) as qualidades de um valor refúgio a longo prazo, uma ferramenta de proteção contra a inflação e a ingerência dos Estados, e encara a sua volatilidade como uma oportunidade para comprar mais.
Mas, para além das convicções e opiniões individuais, o que nos diz realmente o mercado?
Desde outubro de 2025, a Bitcoin tem demonstrado uma descorrelação em relação ao mercado acionista, nomeadamente com os índices tecnológicos.
Enquanto o S&P 500 e o Nasdaq 100 registaram, cada um, um aumento superior a 16 % em 2025, o Bitcoin apresenta uma queda notável de quase 30 % desde o seu máximo histórico de 126 000 dólares, atingido em outubro. Desde o início do ano, o BTC recuou cerca de 5 %, acentuando assim o seu desfasamento em relação aos mercados acionistas.

Cotação do Bitcoin (laranja), comparada com a cotação do S&P 500 (azul), do Nasdaq 100 (rosa) e do ouro (verde)
Esta retração ocorreu num ambiente, no entanto, favorável aos ativos de risco, o que surpreende e preocupa parte dos investidores. Vários fatores explicam esta reviravolta: uma onda de realizações de lucros após o pico de outubro, um abrandamento dos fluxos de entrada nos ETF de Bitcoin à vista e uma série de liquidações nos mercados de derivados.
No entanto, do ponto de vista macroeconómico, Vincent considera que a mudança tardia de rumo da Reserva Federal poderá relançar a criação monetária, um fator historicamente favorável ao Bitcoin.
Esta contradição sugere que o Bitcoin poderá agora evoluir de acordo com as suas próprias dinâmicas, uma viragem para uma maior autonomia enquanto ativo macroeconómico distinto.
Estará o Bitcoin a criar o seu próprio mercado e a emancipar-se dos ativos de risco?
Isto abre a porta a um paradoxo. O Bitcoin ainda é visto por muitos como um ativo de risco e, no entanto, já não acompanha os mercados acionistas há vários meses.
Então, terá-se tornado uma reserva de valor, tal como o ouro? Não exatamente. Pois, desde outubro, é, pelo contrário, o mercado de ações que mostra uma forte correlação com o ouro.
Na realidade, o Bitcoin parece situar-se entre estes dois mundos. Possui todas as características do ouro: escassez, divisibilidade, descentralização, função de reserva de valor. Mas vai ainda mais longe: o Bitcoin é mais facilmente verificável, transportável e divisível do que o ouro. Qualidades que talvez tivessem permitido ao metal amarelo conservar o seu estatuto de padrão monetário.
Poderá então o Bitcoin substituir o ouro como referência monetária mundial? É difícil dizer. Possui as qualidades fundamentais, mas só o tempo confirmará ou não esse papel.
O principal obstáculo continua a ser a sua volatilidade, que ainda hoje faz com que seja qualificado de bolha especulativa, esquema de Ponzi ou ativo demasiado arriscado. No entanto, essa volatilidade tende a diminuir a cada ciclo.
Uma coisa é certa: o Bitcoin é diferente, e o seu papel nos debates económicos, sociais e geopolíticos está apenas a começar.