Jeffrey Epstein, o financista falecido em 2019, volta a ser notícia no mundo da Bitcoin. Novos e-mails, publicados este fim de semana, revelam trocas de mensagens entre 2011 e 2017 envolvendo o MIT, a Blockstream e figuras influentes da comunidade Bitcoin. Esses documentos levantam a questão da influência real do criminoso nos primórdios do protocolo.
De Adam Back a Michael Saylor, Epstein no centro da indústria de criptomoedas
Jeffrey Epstein era um financista americano acusado de dirigir uma vasta rede de tráfico sexual envolvendo menores, com ligações presumidas a várias personalidades públicas e políticas, como Bill Clinton, Donald Trump e Woody Allen.
Preso em 2019, ele foi encontrado morto na prisão, com a versão oficial concluindo que se tratava de um suicídio. Posteriormente, os «dossiês Epstein» chegaram às primeiras páginas dos jornais, reunindo milhares de documentos judiciais, fotos, vídeos, e-mails e mensagens extraídos das suas propriedades. A maioria limita-se a trocas do quotidiano, mas alguns revelam os assuntos que lhe interessaram particularmente ao longo da sua vida, entre eles: Bitcoin.
Este fim de semana, novas peças do processo foram publicadas, revelando a cronologia dos fatos: Epstein se interessou pelo Bitcoin em 2011. Ele descreveu a tecnologia como uma “ideia brilhante”, mas ressaltou a um correspondente anónimo que ela apresentava falhas graves.
As conexões se estendem até atores influentes do ecossistema. Em 2017, Austin Hill, cofundador da Blockstream, teria discutido com Epstein a criação de uma “Sharia Coin”, uma criptomoeda em conformidade com as finanças islâmicas, pensada para a Arábia Saudita.
Noutra mensagem de 2016 sobre essa nova criptomoeda, Epstein afirma ter conversado com os fundadores do Bitcoin, sem especificar quem eram exatamente.
Conversei com alguns dos fundadores do Bitcoin, que estão muito entusiasmados.
Como Satoshi desapareceu em 2011, é mais provável que ele tenha confundido os fundadores do Bitcoin com desenvolvedores ou membros da Bitcoin Foundation, uma organização que financiou o desenvolvimento do Bitcoin até 2015.
Três anos antes, em 2014, a Blockstream teria se encontrado com Epstein e representantes do MIT Media Labs durante sua campanha de arrecadação de fundos. Adam Back, CEO da Blockstream e figura histórica citada no white paper do Bitcoin, reagiu afirmando que o investimento de Epstein foi recusado devido a um possível conflito de interesses.
A defesa de Back não convence toda a comunidade, lembrando que, em 2014, Epstein já havia cumprido 13 meses de prisão, após se declarar culpado em 2008 por solicitação de prostituição de menores.

Entre as trocas de mensagens também aparece Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor da Ethereum. Em 2014, ele perguntou a Epstein se deveria exercer uma «pressão anti-BTC». Epstein respondeu que o Bitcoin deveria primeiro resolver as suas próprias contradições, citando, em particular, a ambiguidade entre o seu anonimato e a sua transparência.
Por fim, Michael Saylor também aparece nesta correspondência, muito antes de sua conversão mediática ao Bitcoin. Numa mensagem, a assessora de imprensa Peggy Siegal o descreve como «um tipo suspeito» e que «não tem personalidade, um pouco como um zombie sob o efeito de drogas».
Epstein e o MIT assumiram o controlo do Bitcoin Core em 2015?
Em 2015, a falência da Bitcoin Foundation deixou os programadores do Bitcoin Core sem uma fonte segura de financiamento. Trocas de e-mails entre Joichi Ito, então diretor do MIT Media Lab, e Epstein revelam discussões sobre as tentativas de algumas organizações de «assumir o controlo» do desenvolvimento do Bitcoin Core, recrutando os seus principais colaboradores: Gavin Andresen, Wladimir van der Laan e Cory Fields.
Ito ficou satisfeito com a entrada dos três programadores no MIT Media Lab, uma entidade parcialmente financiada por Epstein.
No entanto, essa afirmação merece ser matizada. Embora Gavin Andresen realmente dirigisse a Digital Currency Initiative (DCI) do MIT Media Labs, Wladimir van der Laan e Cory Fields eram apenas colaboradores externos, sem ligação direta.
É precisamente essa ambiguidade nas palavras de Joichi Ito que alimenta hoje as especulações. Alguns internautas argumentam que o Bitcoin Core poderia ter sido «capturado» por Epstein, ou mesmo indiretamente por agências de inteligência como a CIA e a Mossad. Estas teorias baseiam-se em factos reais, mas muitas vezes reinterpretados, já que as ligações financeiras entre Epstein e o MIT são conhecidas há vários meses. Além disso, Gavin Andresen também é conhecido por ter se encontrado com a CIA em 2011 para apresentar o Bitcoin, alguns até dizem que foi esse encontro que levou Satoshi Nakamoto a desaparecer definitivamente.
Até o momento, não há provas que demonstrem uma influência direta dessas organizações no desenvolvimento do Bitcoin. É essencial lembrar que, mesmo que tal influência tivesse sido exercida, como o código do Bitcoin é open source e auditável, a comunidade muito provavelmente a teria detectado. Qualquer modificação maliciosa ou orientação duvidosa teria sido identificada, debatida e rejeitada.